Educar um filho é difícil? E quando ele (a) exige uma dose a mais de paciência?

Kauê se aproxima e pede o meu telefone celular emprestado para jogar pela milésima vez. Preocupada com o horário do ônibus que estava saindo,

respondo rápido e sem a “metodologia de combinados” que costumo adotar, que desta vez não poderei emprestar. E ponto.

O caus se instala diante desta negativa. O local é o centro da cidade onde moro, próximo a Rodoviária, onde possui um fluxo maior de pessoas circulando.

Todos olham em minha direção, esperando uma atitude que responda as expectativas daqueles olhares de avaliação que já estou pra lá de acostumada.

As perguntas e afirmações que creio que passam pela cabeça de alguém, que presencia uma situação destas de longe, podem ser as mais diversas, do tipo;

*Como pode uma mãe permitir que uma criança fale com ela deste jeito?

*Só pode ser falta de educação e limite! O mundo está perdido! Se fosse meu filho, não faria isso comigo!

*Falta de um corretivo! Que mãe despreparada e omissa!

*No meu tempo, jamais falaria desse jeito com meus pais.

E se eu te disser pra você, que eu mesma já pensei ao menos em uma das afirmações acima, antes de ser mãe? Isso mesmo!

Lembro-me de quando jovem, estar a caminho do trabalho e dentro do ônibus uma criança de cerca de 2 anos, chorar insistentemente com a mãe, que não queria abrir a blusa e tirar os seios para lhe oferecer o leite materno, creio que por vergonha e a resposta do pequeno a esta negativa, foi um escândalo que só se encerrou quando ela enfim, cedeu.

Naquele dia eu disse pra mim mesma; Quero ver um filho fazer isto comigo! Quem decide sou eu e não uma criança que irá me controlar.

Mais tarde me casei e tive o Arthur. Próximo a completar 20 anos, em outubro deste ano. Para quem conhece , creio que dispensa comentário sua educação. Meu filho se tornou um jovem que me dá muito orgulho. Deu trabalho, mas valeu e tem valido muito a pena. Não por que ele tenha exigido muito de mim, mas porque foi preciso me dedicar a maternidade e aprender a ser um pouco de tudo , como toda mãe precisa ser.

Mas e Kauê? Voltemos ao episódio do celular.

Enquanto eu pensava em como conter os ânimos do Kauê , me lembrava que a pressa me fez esquecer da estratégia dos combinados, do tipo;

Não poderei te emprestar o telefone agora, mas quando chegarmos em casa depois do banho e do jantar, posso deixa-lo jogar por 20 minutos, depois fazemos uma leitura, a que você escolher  ( ele ama) em nossa cabana de lençóis.

Certamente que tudo teria sido diferente. Vivo isto com meu filho diariamente.

Arthur não exigiu tantas estratégias pois não nasceu com as limitações que Kauê possui.

Desde os dois anos de idade meu pequeno faz acompanhamento com Neurologista, Psiquiatra infantil e Psicólogo. Aos 06 anos foi diagnosticado além do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) com comorbidade em TOD (Transtorno Opositor desafiador) cadastrada no CID 10 (Código Internacional de Doenças) sob nº F.9.1.3 , que tem como sintomas o transtorno de ansiedade, irritabilidade, comportamento dissociativo, intolerância as frustrações, dentre outros, o que gera uma tendência a baixa estima e depressão, por não ser compreendido e muitas vezes rejeitado, por não apresentar o comportamento dito como “ adequado aos padrões normais da sociedade”, talvez o tal “padrão” que Arthur apresentara e por isto não chamava a atenção das pessoas.

Mas e então? O que fazer com tanta informação?

Descobri nestes 9 anos como mãe de meu pequeno grande rapazinho, que Deus me deu um dos maiores presentes de minha vida. O Kauê, assim como ele é.

Foi buscando garantir qualidade de vida ao meu filho, que passei a estudar muito mais o comportamento humano. Foi assim que descobrimos que Kauê nasceu com uma espécie de mutação no seu DNA, idêntica a que seu pai possui e que infelizmente no caso dele, nunca havia passado por tratamento, pois a vida inteira ouviu de todos a sua volta que era um menino difícil, um jovem complicado e um adulto intolerante.

Meu filho tem nos ensinado dia após dia a exercitar o amor, através da paciência que temos que empreender para educa-lo, da resiliência, da sabedoria e dedicação.

A avaliação das pessoas hoje já não faz diferença como antes.

Perdi as contas de quantas vezes me tranquei para chorar em banheiros de festas de aniversário ou até mesmo dentro do carro, depois de ouvir comentários maldosos sobre minha conduta como mãe e sobre meu pequeno.

Recordo certa vez, no parquinho da praça da cidade, quando ele tinha 3 aninhos, uma mãe retirar seu filho de perto do Kauê pois ela tinha ouvido na escola que ele era “um perigo”.

Outra ocasião um menino com obesidade infantil estava destacado dos demais no mesmo parquinho. Incentivei Kauê a ir até ele e chama-lo para brincar. Ele disse para meu filho que não poderia correr pois ele ficava cansado e perguntou se ele gostaria de brincar mesmo assim. Meu filho veio me perguntar o que fazer. Expliquei pra ele que tinham outras brincadeiras legais, que poderiam fazer juntos, onde o amiguinho também poderia participar.  Assim os dois curtiram longas horas de brincadeiras e relacionamento.

Sempre me preocupei em ensinar meus filhos a lidarem com as diferenças, muito antes de Kauê nascer. A respeitar as limitações dos outros, pois assim será mais produtivo viver em comunidade. Porém esta não é a realidade da maioria e por isto ainda sofremos tanto com a discriminação e o preconceito.

Esta semana passei a me aprofundar nos estudos do TDAH na adolescência.

Percebo que meu filho está entrando em outra fase, com muito mais questionamentos e enfrentamentos. As reações negativas agora estão seguidas de outras ações, que tem me feito mudar as estratégias de ensino e imposição de limites.

Sei do quanto meu filho é inteligente e da importância dele entender que os limites precisam ser respeitados até mesmo como forma de protegê-lo, mas ensinar isto para uma criança com limitações não é a mesma coisa que ensinar para uma criança sem elas.

Tudo é diferente, mas a busca do resultado é o mesmo: Um adulto resolvido, de bem, capaz de construir seu futuro com responsabilidade e maturidade, deixando um legado de amor e sucesso, que vale a pena ser lembrado e até mesmo inspirado.

Lembrando que cada um pode ter sua própria visão de sucesso.

Enfim, espero que o artigo de hoje ajude muitas mães, pais e qualquer um que tenha um filho (a) ou participe da vida de uma criança especial , a não desistirem de buscar informação, pesquisarem se preciso e pagar o preço de dedicação e paciência na formação dos cidadãos do futuro. Mesmo limitados.

Não mantenha o foco nas ações negativas de baixa complexidade ou nas avaliações não construtivas que as pessoas irão produzir a seu respeito ou sobre seu filho.

Fique ligado sim aos sinais, compartilhe com a escola situações do cotidiano que podem ajudar os profissionais de ensino a traçar estratégias específicas para o aprendizado.

Se seu filho é uma criança normal, sem limitações, mas ainda assim a educação é um desafio para você, capaz de te desestabilizar emocionalmente, busque a ajuda de profissionais para você. Quem sabe é você que precisa de ajuda? Já pensou nisto?

É maravilhoso poder relacionar-se com a perfeita criação de Deus, o ser humano, mas é preciso saber lidar com a mesma dimensão de sua complexidade.

Lembre-se, desistir não é uma opção!

Boa Sorte!

Abraços de 30 segundos.

Claudinha Mendes

 

 

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